A história de um breve encontro com John Lennon

Em meados de setembro de 1976, John Lennon chegou a Boston não como um Beatle, não como manchete, mas simplesmente como um homem de passagem. A cidade mal notou. Um breve parágrafo no The Boston Globe mencionou um "Beatle em Boston", alegando que Lennon estava visitando amigos na vizinha Brookline e hospedado no Copley Plaza Hotel. O hotel negou imediatamente. Segundo eles, nenhum Sr. Lennon havia feito o check-in.

Para John Nucci, um fã devoto do leste de Boston, essa negação não significava nada. Ele sabia que não era verdade. Cinco minutos depois, ele estava no saguão do Copley Plaza, testando a tênue linha que separava o mito público da verdade privada. Quando o recepcionista se virou, Nucci folheou silenciosamente o livro de check-in. Lá estava - escrito errado, quase que deliberadamente disfarçado: Lennen, John. Uma suíte no sexto andar. Quartos conjugados para a babá e um assistente. A verdade estava bem à vista de todos.

 Depois de alguma espera - e de uma dica útil de uma camareira que mencionou ter visto “uma senhora chinesa” entrar em uma das suítes - Nucci e seu amigo estavam prestes a sair quando o impossível aconteceu. As portas do elevador se abriram e de lá saíram John Lennon e Yoko Ono, seguidos pela babá que carregava o pequeno Sean.

Não houve nenhuma apresentação dramática. Nucci disse olá. John respondeu. Caminharam juntos pelo corredor, uma procissão estranhamente comum considerando quem estava presente. Lennon parecia inquieto, visivelmente preocupado com a forma como sua presença havia sido descoberta. Quando Nucci mencionou o Boston Globe, Lennon explodiu - a raiva transbordando em palavras ásperas e sem filtro. Ele entrou na suíte furioso sem se despedir, ainda amaldiçoando a transgressão.

Yoko hesitou. Virando-se, falou suave e firmemente: “Por favor, não conte a ninguém que nos viu, querido.” Nucci prometeu. E cumpriu a promessa - pelo menos até deixarem Boston.

No dia seguinte, culpa misturada com arrependimento. Sem fotos. Sem autógrafo. Nenhuma prova concreta de que o momento tivesse realmente acontecido. Então Nucci voltou - desta vez armado com uma câmera, uma caneta, um broche caseiro com os dizeres “Salvem Lennon” e um exemplar do boletim informativo The Write Thing com a imagem de John e as palavras em negrito “Nós Vencemos”.

Eles esperaram novamente, almoçando e bebendo cerveja no corredor, sem serem notados pelos funcionários do hotel e outros hóspedes que ainda acreditavam nas negativas oficiais. Quando John e Yoko saíram - John carregando Sean - ele os reconheceu imediatamente. Nucci o lembrou gentilmente: “Eu te disse que não contaríamos para ninguém”. Lennon assentiu. “É, obrigado. Ninguém nos incomodou de verdade”. Então, quase na defensiva, acrescentou: “Eu tenho uma vida, sabia?”.

Antes que a dor daquele comentário pudesse passar, Lennon notou a caneta e a revista. “Quer que eu assine isso?”, perguntou. Assinou sem hesitar. Quando Nucci lhe mostrou o slogan da capa, Lennon riu. Aceitou o broche com um caloroso “Ei, ótimo - muito obrigado”.

Seguiram-se as fotos. Lennon fez piadas, provocou, posou de bom grado. Quando perguntado sobre novas músicas, sorriu ironicamente: “Não, não em breve. Estou pensando muito nisso”. Quando lhe ofereceram uma cerveja, Yoko recusou educadamente por ele. John repetiu a recusa, grato, mas firme. Ele brincou sobre os sotaques de Boston, acertando - e errando - o palpite sobre a ascendência irlandesa.

Lá embaixo, outro fã esperava com um retrato gasto de Lennon da época do Sgt. Pepper. John o aceitou gentilmente. Uma velha perua verde parou. John entrou no banco da frente ao lado de Yoko, segurando o retrato. Antes de ir embora, abaixou o vidro, sorriu, acenou e disse: “Vai com calma, cara - e obrigado pelo silêncio.”

Refletindo sobre o ocorrido, Nucci sentiu um conflito silencioso. Ele havia cruzado uma linha - ainda que sutilmente. Ele havia se intrometido na vida de um homem que tentava viver em privacidade, criando seu filho, escondendo-se do barulho que um dia comandou. Contudo, quando Lennon percebeu o quanto o encontro significava, ele se mostrou mais compreensivo. Ele se encontrou com o momento no meio do caminho.

Essa era a estranha verdade de amar John Lennon. Você sabia que era apenas mais um. Sabia que ele merecia paz. E ainda assim, se um Beatle aparecesse na sua cidade natal, você se sentia compelido a tê-lo em sua vida, mesmo que brevemente. Não por obsessão, mas por gratidão. Porque às vezes encontrar seu ídolo não se trata tanto de tirar algo dele, mas sim de perceber, por um instante fugaz, que ele é humano, e você também.